Considerações sobre a tecnologia (livro-texto)

livro1Para Lajolo (1996), o livro-didático pode patrocinar todas as modalidades de leituras que geralmente são associadas a outros gêneros de livro. Entretanto, tem por característica fundamental, na maioria dos casos, um envolvimento mais coletivo sobre seu processo interpretativo. Segundo Lajolo (1996), livros não-didáticos geralmente: 

“dispensam seus leitores de qualquer gesto que ultrapasse a leitura individual, o que, aliás, não é pouco, se se entender leitura no sentido amplo de produção e alteração de significados, de envolvimento afetivo, de experiência estética. O manual de instalação de um aparelho, por exemplo, produz  significados, na medida em que, a partir da leitura dele, seu leitor aprende a instalar um videocassete, distinguindo pólo positivo de pólo negativo e ambos do fio de terra, ligando cabos diferentes a diferentes chaves, e assim por diante.

Um livro de receitas, por sua vez, ao sugerir que o leitor cozinhe abóbora com feijão, produz significados para os leitores que jamais cozinharam ou viram cozinhar aquele vegetal alaranjado de casca dura e cheio de sementes; mas também  altera significados para aqueles leitores que, até lerem a receita, só sabiam que se utilizava abóbora como ingrediente de doce e que só tinham comido feijão cozido com lingüiça.” (pág 3)

Livro-didático é, segundo Lajolo (1996), “o livro que vai ser utilizado em aulas e cursos, que provavelmente foi escrito, editado, vendido e comprado, tendo em vista essa utilização escolar e sistemática”. Segundo a autora, a sua importância tem valor potencializado em países, como o Brasil, onde a nefasta “situação educacional” obriga que tais materiais sirvam como determinantes de conteúdo bem como das estratégias do processo educacional a ser adotado, marcando efetivamente como se ensino e o que se ensina (Lajolo, 1996).

Dada a sua importância, o livro didático é um amplo campo de estudo. Para pesquisá-lo em sua plenitude é preciso levar em conta diferentes campos e estudos das mais variadas fontes. Segundo Fernandes (2004), entre as produções existentes, grande parte toma como corpo de estudo o próprio livro ou seu conteúdo, portanto, poucos estudos se interessam por sua história e sua entrelaçada presença na vida social. Segundo Fernandes (2004) “os estudos analisam, fundamentalmente, seus discursos textuais e iconográficos, e de que forma difundem conhecimentos científicos atualizados ou ultrapassados”.

Entretanto, pesquisas recentes tem se diferenciado das linhas mais comuns e vem dando conta de sua concepção, produção, difusão e uso, sem contar aqueles estudos sobre as relações do livro didático com as políticas públicas, os currículos e a industria editorial (Fernandes, 2004). De uso restrito ao âmbito escolar, o livro didático reproduz valores da sociedade. Entre seus objetivos mais gerais, divulga as ciências e a filosofia, reforçando o estilo de aprendizagem centrado na memorização do conteúdo, cumprindo sua tarefa ao longo de muitos anos. Embora o emprego de tecnologias baseadas nas TICs venham ganhando espaço no cenário educacional, o livro-didático ainda se sustenta na condição de recurso primordial. Os motivos dessa supremacia são muitos, mas o fato de utilizar o mais fundamental meio de comunicação humana, o código lingüístico, e suas características físicas, que o fazem bem exeqüível em diferentes espaços e tempos, são certamente alguns destes motivos.

Reflexões com um viés mais político sobre o assunto indicam que o livro didático não está deslocado do contexto político e social cultural e das relações de dominação, e por conta disso é visto como instrumento da legitimação de sistemas de poder, representando universos culturais específicos, tornando-se importante na manutenção de determinadas visões de mundo (Fonseca, 1999). Segundo Macedo (2004):

“os livros didáticos não são objetivos ou factuais, mas produtos culturais que devem ser entendidos como o resultado complexo de interações mediadas por questões econômicas, sociais e culturais. Ou seja, os livros didáticos expressam a materialização de conflitos entre grupos para hegemonizar suas posições. É claro que esses conflitos não se dão num vazio econômico e social, com visível interferência, por exemplo, de um mercado editorial poderoso” (pág 106).

Entretanto sua nomenclatura, enquanto “livro didático”, é dependente de seu uso sistemático como ferramenta de aprendizagem sobre um corpo de conhecimento qualquer. Sendo que a própria qualidade da aprendizagem pode ser determinada pela efetividade do livro didático utilizado. Por outro lado, apesar de importante, este gênero de livro é considerado o “primo pobre” da literatura, segundo Lajolo e Zilberman (1999), é:

“um texto para ler e botar fora, descartável porque anacrônico, ou ele fica superado dados os progressos da ciência a que se refere ou o estudante o abandona, por avançar em sua educação. Sua história é das mais esquecidas e minimizadas, talvez porque os livros didáticos não são conservados, suplantado seu prazo de validade.”

E confirmado por Fernandes (2004), que depois de realizados alguns estudos sobre o tema, contatou que:

“depois que deixa de ser utilizado como material na sala de aula, o livro didático, só em casos específicos, foi guardado, revisitado ou reencontrado com o passar do tempo. E, nessas situações, também cabe questionar sua mudança de valor com o tempo.” (pág 533)

Embora muitas das considerações feitas até aqui estejam num plano bastante generalizante, no caso dos livros de ciências, existem algumas funções que lhe são próprias, diferenciando-os dos demais livros didáticos. A aplicação do método científico, que visa estimular a análise de fenômenos, teste de hipóteses, e formulação de conclusões, se caracterizam como as principais funções de um livro de ciências. Fora a compreensão científica dos fatos, livros sobre o ensino de ciência devem propiciar ao aluno um entendimento filosófico e estético da realidade que o cerca, promovendo uma reflexão crítica e formando indivíduos/cidadãos (Vasconcellos, 1993).

A criação de um programa federal para avaliar a qualidade destes materiais, o Programa Nacional dos Livros Didáticos, se deu no plano do ensino fundamental, em 1985, sendo estendido ao ensino médio no ano de 2006. Embora os problemas se estendam aos demais níveis de formação acadêmica, nada consta quando ao desenvolvimento destes materiais especificamente para o ensino superior nas áreas de ciências e saúde.

No campo da educação, entender esta tecnologia na sua completude é justificar sua importância no contexto de ensino, ou seja, no processo de ensino aprendizagem. O livro didático é para aprendizado coletivo, e orientado por um professor, foi produzido em função da escola, editado e vendido neste sentido, onde acaba influenciando e determinando conteúdo e estratégias adotadas no processo de ensino-aprendizagem (Lajolo, 1996; Vasconcellos, 1993).

Na educação, igualmente, não basta acontecer a evolução do livro, embora ele seja de significativa importância. Antes de proporcionar uma ferramenta de qualidade ao aluno e seu professor, é preciso que ambos tenham, entre outras exigências fundamentais, condições de preparo e um lugar adequado para utilizá-lo. Um espaço físico que proporcione segurança, comodidade, liberdade e a possibilidade de atualização e aperfeiçoamento dos professores, o que, até o momento, inexiste em grande parte dos ambientes de ensino no Brasil.

Como na maioria dos livros que se adequam a este gênero de texto, no ensino de ciências os livros didáticos representam, em alguns casos, o único material de apoio didático disponível tanto para alunos como para professores. Chega a ser lugar comum, entre educadores, entender o livro-didático como norteador das abordagens de ensino e formador de currículo (Vasconcellos, 1993), o que deve ser discutido com extrema cautela.

É claro que a tese levantada aqui não sugere, de forma alguma, que a importância do livro-didático como instrumento específico e importante ao ensino e aprendizagem formal seja questionado, visto que em muitos casos, se trata de um elemento decisivo para a qualidade do aprendizado resultante das atividades escolares (Lajolo, 1996). O que se questiona aqui é o papel indevido que muitas vezes é associado, consciente ou inconscientemente, a este material de ensino. Todo e qualquer livro-didático tem por obrigação deixar claro suas concepções de educação ao “pontífice” do processo educacional, o professor.

Para reforçar esta questão, segundo Silva (1996):

“para uma boa parcela dos professores brasileiros, o livro didático se apresenta como uma insubstituível muleta. Na sua falta ou ausência, não se caminha cognitivamente na medida em que não há substância para ensinar. Coxos por formação e/ou mutilados pelo ingrato dia-a-dia do magistério, resta a esses professores engolir e reproduzir a idéia de que sem a adoção do livro didático não há como orientar a aprendizagem. Muletadas e muleteiros se misturam no processo…” (pág 7)

Diante das dificuldades levantadas aqui, tornou-se evidente a necessidade de uma transformação deste material, afim de atender as novas demandas. Por desfrutar de tamanha importância no cenário educacional, segundo Lajolo:

“o livro didático precisa estar incluído nas políticas educacionais com que o poder público cumpre sua parte na garantia de educação de qualidade para todos. Pela mesma razão, a escolha e a utilização dele precisam ser fundamentadas na competência dos professores que, junto com os alunos, vão fazer dele (livro) instrumento de aprendizagem.” (1996, pág 4)

De um modo geral, este gênero literário se dirige, de modo simultâneo, a dois “atores”: o professor e o aluno (Lajolo, 1996). Do lado do professor, este precisa interagir e dialogar com seu material, e ambos, como aliados de um processo bastante complexo e especial, participam na construção de um objetivo comum, cujo “beneficiário final”, segundo Lajolo (1996), é o aluno.

Enfatizar os componentes do livro didático é também dever daqueles que acreditam na função de aprendizagem que ele patrocina. Não é apenas de linguagem verbal que o livro se constitui. É necessário que todos os modos de interação entre usuário e material, ou seja, suas linguagens sejam igualmente eficientes. O que significa dizer, nas palavras de Lajolo (1996):

“que a impressão do livro deve ser nítida, a encadernação resistente, e que suas ilustrações, diagramas e tabelas devem refinar, matizar e requintar o significado dos conteúdos e atitudes que essas linguagens ilustram, diagramam e tabelam” (pág 4).

Resumidamente, num livro didático, todos os seus aspectos precisam estar em função da situação coletiva da sala de aula, a fim de que nele se aprenda conteúdo, não somente através da leitura de suas informações, mas também através dos exercícios que ele sugere (Lajolo, 1996). Para Lajolo,

“a qualidade dos conteúdos do livro didático – informações e atitudes – precisa ser levada em conta nos processos de escolha e adoção do mesmo, bem como, posteriormente, no estabelecimento das formas de sua leitura e uso.” (pág 4)

Tal argumentação faz bastante sentido, sobretudo diante do forte marketing das editoras nos dias de hoje. Silva (1996) lembra ainda que a tradição do livro didático é tão forte no sistema educacional brasileiro, que o seu acolhimento chega a ser até independente da vontade e decisão dos professores. Em interessante reflexão sobre o uso do livro didático, Silva (1996) escreve:

“Não é à toa que a imagem estilizada do professor apresenta-o com um livro nas mãos, dando a entender que o ensino, o livro e o conhecimento são elementos inseparáveis, indicotomizáveis. E aprender, dentro das fronteiras do contexto escolar, significa atender às liturgias dos livros, dentre as quais se destaca aquela do livro “didático”: comprar na livraria no início de cada ano letivo, usar ao ritmo do professor, fazer as lições, chegar à metade ou aos três quartos dos conteúdos ali inscritos e dizer amém, pois é assim mesmo (e somente assim) que se aprende.” (pág 8)

Segundo Fernandes (2004), o caráter descartável do livro-didático tem suas raízes em sua relação intrínseca com o conteúdo e o contexto educacional.

“De modo geral, o livro didático tem sido desvalorizado depois de seu uso imediato por cumprir uma função específica na vida dos indivíduos, ou seja, por ser intrínseco ao contexto escolar, tornando-se descartável e sem valor fora de seu contexto original.” (pág 537)

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~ por João Cardoso de Castro em novembro 10, 2008.

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