Considerações sobre a Educação

education“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende” João Guimarães Rosa

Sobre a educação, de um modo geral, é fato que ninguém escapa da sua alçada. Seja em casa, na rua ou na escola, de um modo ou de muitos, todos vivemos pedaços da vida com ela: seja para aprender, ou para ensinar, para saber, para fazer, para saber fazer e conviver. Mas existe uma educação ou se tratam de várias? Há muitos anos, nos Estados Unidos, Virgínia e Maryland assinaram um acordo de paz com os Índios das Seis Nações. Como símbolo de boa fé, governantes destes estados mandaram cartas aos índios para que enviassem alguns de seus jovens às escolas dos “brancos”. Os chefes indígenas agradeceram o convite, mas recusaram, afirmando:

“estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo coração. Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações, tem concepções diferentes das coisas…muitos de nossos guerreiros foram formados nas escolas do Norte…quando voltavam eram maus corredores, ignorantes da vida na floresta….não sabiam caçar, construir cabanas…eles eram, portanto, totalmente inúteis…mas para mostrar nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores de Virgínia que nos enviem alguns de seus jovens, que lhes ensinaremos tudo que sabemos e faremos deles, homens.” (Brandão,1989, pág 8)   

De tudo o que se discute hoje sobre a educação, algumas das questões mais fundamentais estão escritas nesta carta. Não há uma forma única de educar, muito menos um modelo capaz de abarcar todas estas dificuldades. A escola não é o único lugar onde este ato acontece, e talvez nem seja o melhor deles (Brandão, 1989). 

O ato de educar, num sentido geral, vai muito além do modesto modelo representado pela fórmula “transmitir/adquirir” informações. No próprio processo educativo existe, ainda que inconscientemente, um sem número de representações de sociedade, bem como do homem que se quer (in)formar. Segundo Pereira (Pereira, 2003), é:

“através da educação as novas gerações adquirem os valores culturais e reproduzem ou transformam os códigos sociais de cada sociedade. Assim, não há um processo educativo asséptico de ideologias dominantes, sendo necessária a reflexão sobre o próprio sentido e valor da educação na e para a sociedade” (2003, Introdução)

Como bem sugeriu Kneller (1981), se queremos compreender essas idéias em seus termos mais claros, podemos recorrer à filosofia. O primeiro passo para entendermos o que é educação inclui o que chamaremos de revisão terminológica. O que precisamos esclarecer é o que cai sobre sua delimitação e o que foge à sua alçada. Segundo o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.(2007), a melhor maneira de agir é comparar o termo em questão com aqueles que são tomados erradamente por seus sinônimos: pedagogia e didática. Pedagogia, que tomaremos em seu sentido mais restrito, tem suas origens na Grécia antiga. “Pedagogo” era, ainda segundo Ghiraldelli (2007), o escravo que levava a criança para o local da relação ensino-aprendizagem, portanto não era um instrutor, mas um “condutor”, diria o autor.

Nos dias de hoje, pedagogia designa as normas em relação à educação (Ghiraldelli, 2007). Se caracterizando por uma reflexão sobre o que devemos fazer, quais materiais devemos utilizar, como podemos melhor aproveitá-los, estas são as perguntas que devem nortear toda e qualquer corrente pedagógica, e o que deve estar na mente do pedagogo moderno. A didática, por sua vez, é a técnica de dirigir e orientar o ensino-aprendizagem, sendo portanto, um saber técnico que pretende fazer a melhor adequação entre meio e fim. (Ghiraldelli, 2007).

Já a educação deve ser entendida, segundo Ghiraldelli (2007) como “prática social da relação ensino-aprendizagem situada no tempo e no espaço…que acaba em um ato e nunca mais se repete” (2007).

“nem mesmo os mesmos participantes podem repeti-la. Nem podem gravá-la. Nem na memória nem por meio de máquinas. É um fenômeno intersubjetivo de comunicação que se encerra em seu desdobrar. No caso, se falamos de um encontro entre o professor e o estudante, falamos de um fenômeno educacional – que é único. Quando ocorrer outro encontro do mesmo tipo, ele nunca será o mesmo e, enfim, só superficialmente será similar ao anterior.” (disponível no endereço http://www.centrorefeducacional.com.br/pdaguira.htm)

Sobre o procedimento propriamente dito, é impressionante a pouca atenção que é dada ao processo de ensino-aprendizagem, em seus dois aspectos mais fundamentais: o ensino e a aprendizagem. Como se fosse o paradigma da “caixa-preta”, ideologia procedente da cibernética, onde determinadas “entradas”, produzem certas “saídas”, e da onde só interessa saber os resultados, e pouco importa o processo em si, é dessa forma que a grande maioria dos estudos sobre educação procede em suas pesquisas. Ficam tão fascinados nos escores e no desempenho de seus alunos, que na maioria dos casos, deixam de lado “os meios pelos quais professores e alunos enfrentam seu trabalho na vida real nas salas de aula – como os professores ensinam e como os alunos aprendem” (Bruner, apud Demo, 2000).

A idéia de que o ensino é uma atividade cultural, parece justificar sua resistência à mudança. Os modelos sócio-culturais são transmitidos através de um processo dinâmico de integração pela ação conjugada de diversos agentes. Como qualquer atividade cultural, o ensino é aprendido através da participação, o que significa dizer, que é algo que se aprende a fazer mais crescendo dentro da cultura, do que se estudando propriamente dito (Stigler & Hiebert, 1999). 

Vivemos hoje uma sociedade com enorme pluralidade de opções no que se refere a formas de vida e que, de alguma forma, afeta nosso cotidiano em inúmeros aspectos. As transformações culturais e econômicas que caracterizam a “sociedade da informação” fazem com que tradicionais agentes de socialização sejam questionados, e a escola, sendo um destes agentes, parece estar em “crise” (Flecha & Tortajada, 2000). A sociedade “industrial”, tinha como postulado básico a idéia do capital humano, e a função da escola era exatamente formar cidadãos que levassem adiante tais ideais.

Com as diversas mudanças de valores sofridas pela sociedade atual, é preciso que a escola agora se esforce para acompanhar tais transformações, sob o risco de que seu equilíbrio agora corre sérios riscos. Não faltam argumentos para sustentar esta “crise” que a escola vive: algumas correntes sugerem que a escola já não forma mais para o mercado de trabalho; outras se baseiam no fracasso e abandono escolar; etc (Flecha & Tabajada, 2000).

Deixando de lado essa visão mais política do processo educacional, não podemos deixar de lado a prática educacional em si. Apesar de se tratar de uma perspectiva bastante reduzida do fenômeno, é de grande importância a esta pesquisa. Visto que o objeto desta dissertação é, de algum modo, a integração de tecnologias na prática educacional, independente do gênero de material educativo aplicado, é necessário que estes modelos sejam devidamente investigados.

Posto isso, a prática pedagógica construtivista, baseado nas reflexões de seus principais teóricos, Vygosky e Piaget, vêm solidificando cada vez mais seu espaço no cenário educacional. Do ponto de vista do construtivismo, aprendizado é um processo construtivo no qual o aprendiz está construindo uma ilustração interna do conhecimento, uma interpretação da experiência. Está representação, por sua vez, está sempre aberta para modificação, sua estrutura e elos formam a base para outros conhecimentos. O aprendizado é um processo onde o significado é alcançado com base na experiência. É importante ressaltar, entretanto, que esta perspectiva do conhecimento não necessariamente rejeita a existência do mundo real, somente acredita que tudo que conhecemos deste mundo é necessariamente interpretação da experiência humana. O próprio crescimento conceitual vem da transformação da nossa representação interna em resposta as experiências acumuladas.

Teorias construtivistas, partindo das contribuições de seus teóricos (Piaget e Vygotsky) têm como premissa fundamental a idéia de que o indivíduo é agente ativo da construção de seu próprio conhecimento, o que significa dizer que é somente através de sua ação sobre as informações que lhe são apresentadas, que este indivíduo é capaz de construir conhecimento. Ele constrói significados e define suas próprias representações de realidade de acordo com suas experiências e vivências em diferentes contextos (Fosnot, 1998).

O desafio fundamental do construtivismo é a mudança de um ensino centrado no professor, para um novo modelo, que converge suas reflexões no paradigma do aprendizado, no aluno. Pensadores com fundamentos na psicologia behaviorista de Skinner desenvolveram programas onde os estudantes eram motivados a atingir objetivos pré-definidos. Construtivistas dizem que esta atitude viola os principais conceitos sobre a natureza da aprendizagem (situada, interativa). Na abordagem construtivista os objetivos devem ser negociados com os estudantes, sobretudo, baseados em suas necessidades. As atividades programadas devem emergir de dentro do contexto de suas vidas. De acordo com esta visão de conhecimento, o aprendizado deve ser colocado em um rico contexto, refletindo o contexto do mundo real de cada indivíduo, para que o processo de ensino-aprendizado possa ultrapassar as barreiras da escola ou sala de aula.

Educadores devem considerar também o nível de desenvolvimento cognitivo de seus alunos quando forem planejar tópicos e métodos de instrução. Um exemplo simples desta idéia é o fato de crianças apresentarem certa dificuldade em entender concepções abstratas, sobretudo aquelas que não fazem sentido em seu próprio cotidiano. Muito provavelmente estas mesmas crianças encontraram maior facilidade de aprender se estas informações fossem apresentadas através de exemplos concretos e cotidianos. Estudos indicam que estudantes, de um modo geral, necessitam de experiências concretas que antecedam a apresentação do material abstrato.

Outro aspecto interessante é a necessidade dos estudantes organizarem as informações que recebem. Professores podem ajudar seus alunos na medida em que possam apresentar a informação de forma organizada, e mostrar como uma coisa se relaciona com a outra. Novas informações são mais facilmente adquiridas quando as pessoas podem associá-las a outros conhecimentos que já possuam. Intrinsecamente relacionada à aplicação anterior, neste tópico, cabe igualmente aos professores a idéia de ajudar seus alunos mostrando-os como as novas informações podem se relacionar com antigos conhecimentos, visto que quando estudantes são incapazes de relacionar novas informações com conhecimentos que lhes sejam familiares, o aprendizado se torna lento e ineficaz.

Não podemos esquecer a ênfase na atividade mental, tão própria do construtivismo. Skinner argumentou, de uma perspectiva de condicionamento operante, que estudantes devem necessariamente responder ativamente sobre o aprendizado. Cognitivistas compartilham isto com Skinner, entretanto, enfatizam as respostas mentais ao invés das comportamentais. Se estudantes controlam seus próprios processos cognitivos, é também o estudante quem decide qual informação será aprendida e como. Contrapondo esta visão, temos o chamado “comportamentalismo”. Teóricos da psicologia, como o filósofo William James, já haviam enxergado a idéia de um ramo da ciência que estudasse apenas os comportamentos, puramente externos. Entretanto, a psicologia behaviorista, propriamente dita, começou a ganhar força com o médico russo Ivan Pavlov que, através de suas clássicas experiências com cães, desenvolveu sua teoria dos reflexos condicionados.

Porém, o fundador do comportamentalismo como “escola”, foi o psicólogo norte-americano John B. Watson, falecido em 1958, que desenvolveu as exigências, que mais tarde, norteariam as pesquisas de seus seguidores, dentre as quais, destacaria como exemplo, a verificação concreta de hipóteses e a negação da introspecção como método de análise. O maior divulgador do comportamentalismo foi, sem dúvida, Skinner, um grande seguidor das premissas teóricas de Watson.

Skinner, psicólogo norte-americano nascido na Pensilvânia, talvez tenha sido o primeiro a prever a utilização dos princípios do behaviorismo na psicoterapia, na educação e até na formulação de políticas públicas. O behaviorismo clássico abraçou a idéia de que todo comportamento humano é infalivelmente controlável por meio do padrão de estímulo-resposta.

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~ por João Cardoso de Castro em novembro 8, 2008.

2 Respostas to “Considerações sobre a Educação”

  1. 1) pressupostos teóricos do skinner são bem, mas bem diferentes dos de watson. não confunda behaviorismo metodológico com behaviorismo radical, pois o conceito de comportamento de um e de outro é completamente diferente.
    2) Skinner não enfatizar em “processos cognitivos”, como você coloca, enquanto uma contribuição do construtivismo, é um tanto equivocado – Para skinner, pensar é comportamento tanto quanto andar, falar, etc, e deve ser estudado da mesma forma. Logo, não é uma proposta que ignora sentimentos, pensamentos, etc., tal qual seu texto discursa sobre.
    3) Skinner não foi um mero divulgador do comportamentalismo de Watson – é melhor ler mais sobre ambos os trabalhos e perceber diferenças cruciais – para watson o comportamento é sinônimo de resposta, enquanto que para skinner o comportamento é a interação entre a resposta do indivíduo, consequências a essa resposta e condições que proporcionam a sua ocorrência – o comportamento é a relação.

    Dentre outras coisas, vale ressaltar que todo o texto fala de teóricos behavioristas anteriores a skinner: james, pavlov e watson, que sequer concebem a noção de comportamento operante, formulada por ele.

    Quanto aos aspectos sobre o construtivismo acho o texto bastante interessante, mas vale reavaliar as críticas ao behaviorismo, pois qualquer behaviorista reconhece claramente falhas nos argumentos acima.

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