Breves relexões sobre a Filosofia da Técnica…

definicao-da-filosofia-345345Ao fundo da questão central que objetiva esta proposta de estudo é fato que estamos necessariamente engajados na questão da técnica. Posto isso, parece necessário esclarecer brevemente o que entendemos por técnica. A palavra técnica é derivada do grego téchne, que é sinônimo de arte, e designa um saber-fazer.

“Em toda sociedade humana existe e sempre existiu necessariamente um saber técnico, […] exemplo disso são, entre outros, o pousio, a rotação de terras, a agricultura itinerante […] Esses sistemas técnicos sem objetos técnicos não eram, pois, agressivos, pelo fato de serem indissolúveis em relação à Natureza que, em sua operação, ajudavam a reconstituir[…]” (Santos, 1994, pág 136).

A técnica, como reconhecem alguns críticos do tema, tem sua origem histórica perdida em um passado longínquo, junto com a própria origem da humanidade, não se podendo nem mesmo afimar que ela seja própria do ser humano, pois encontramos animais dotados de habilidades técnicas, como a abelha, o castor, o chimpanzé, e tantos outros. Como afirma Yves Schwartz (1995), o organismo vivo, em um meio natural, regido por seus determinismos, busca, mesmo com o perigo de sua própria vida, se instituir centro de um meio, já recortado, por sua vez, por seus próprios valores (do organismo). No entanto, podemos reconhecer, no caso específico do organismo humano, uma característica peculiar em sua técnica, que é sua regência, por um grau de intencionalidade, capaz de ir além dos artefatos que se possam fabricar. Uma intencionalidade, cuja natureza é capaz de instituir um campo de culturas humanas que vai diferenciar, instrumentar, capitalizar, simbolizar, animar valores e conflitos.

Este campo de culturas humanas, este patrimônio, vai, por conseguinte, se constituir como seu novo meio imediato, sobre o qual recursivamente o ser humano de forma individual e coletiva vai interagir, aperfeiçoando neste contato entre o meio e os demais seres, a técnica que nasce e cresce desta mesma interação. Atualmente, é realmente imensa a literatura que trata da técnica, sobre todos os aspectos concebíveis: históricos, filosóficos, sociais, econômicos, culturais, políticos, etc.; sem contar a legião de textos, manuais, livros e periódicos sobre técnicas específicas, dos mais diversos temas, que se possa sequer imaginar. De fato, sob o termo técnica se esconde, desde sua origem grega, uma estranha diversidade, reunindo tanto produto final, quanto processo de produção, ou seja: máquinas, artefatos, mas também procedimentos, métodos, em seqüências, por vezes, totalmente imateriais.

Neste sentido, é importante de imediato estabelecer, na medida do possível, uma sutil distinção entre o que acabamos de investigar, a técnica, e a tecnologia. Outrora noções tão inconfundíveis, mas que, atualmente, se tornaram termos comumente tratados de forma intercambiável. O historiador das técnicas, François Sigaut (1996) esclarece que o termo tecnologia difundiu-se muito após a última grande guerra, com a acepção de conjuntos de técnicas modernas e de caráter científico, em oposição às práticas supostamente empíricas dos artesãos. Entretanto, já existia uma tradição européia de emprego deste termo, especialmente na Alemanha, desde o século XVIII, para designar uma ciência das técnicas, seja as modernas ou a dos povos considerados primitivos.

Segundo o filósofo das técnicas Jean-Pierre Séris (1994), mesmo nesta confusão atual, talvez ainda se possa estabelecer uma separação: de um lado, o termo tecnologia referir-se-ia aos veículos, às operações e às fabricações integradas a um complexo ou a um corpo, ao mesmo tempo teórico e prático, o da tecnociência; de outro, a técnica significaria as transformações operatórias da natureza e do meio humano, designando, no mais das vezes, o saber-fazer desenvolvido pelo ensino ou pela prática, em uma certa oposição ao significado atual do termo arte.

Desta forma, acumulam-se produtos acabados, encarnações sucessivas das técnicas mais sofisticadas, ao mesmo tempo, que se restringe, ao máximo, o domínio de cada indivíduo sobre a técnica, o saber-fazer, às simples rotinas de acionamento de botões ou comandos, dentro de uma filosofia que privilegia a chamada usabilidade dos produtos. Critério maior das normas de qualidade internacionais (ISO 9000), reunindo princípios de facilidade de uso, juntamente com eficiência e eficácia na aplicação da técnica.

A técnica parece se colocar como uma manifestação do ser humano, em sua relação com a Natureza, seu contexto maior, formando neste processo iterativo um meio imediato, que lhe é próprio. Este, por sua vez, será continuamente re-configurado, pela dita manifestação do ser humano, pela técnica, e pelas possibilidades que se oferecem através das fissuras disponíveis neste meio, definido por uma geração de técnicas. Fissuras que proporcionam aberturas na articulação homem-meio, possibilitando o exercício da criatividade humana.

Veja muito mais sobre a Filosofia da Técnica em http://www.igeo.ufrj.br/gruporetis/tecnica

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~ por João Cardoso de Castro em novembro 8, 2008.

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